Sebastião Alves de Almeida

Modelos pedagógicos das redes estadual e municipal de São Paulo e a prática docente EDUC

um estudo comparativo entre políticas curriculares, planos de aula e ferramentas digitais

Araruama – RJ
2026
Sebastião Alves de Almeida

Modelos pedagógicos das redes estadual e municipal de São Paulo e a prática docente EDUC

um estudo comparativo entre políticas curriculares, planos de aula e ferramentas digitais

Estudo técnico-pedagógico apresentado como documento de referência da linha EDUC Games, elaborado por professor efetivo da rede municipal de Araruama (RJ), com o objetivo de comparar os modelos pedagógicos adotados pelo Governo do Estado de São Paulo e pela Prefeitura de São Paulo com planos de aula e ferramentas digitais de autoria própria.

Araruama – RJ
2026

Resumo

Este estudo analisa os modelos pedagógicos, metodológicos e didáticos adotados pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEDUC-SP) e pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SME-SP) e os compara com planos de aula e ferramentas digitais desenvolvidos pelo autor sob a marca EDUC Games. Trata-se de pesquisa qualitativa, documental e bibliográfica, baseada em documentos oficiais, pareceres de conselhos de educação, notícias institucionais e produção acadêmica de 2017 a 2026. Os resultados indicam que a rede estadual adota um ensino estruturado e centralizado, com aulas prontas em slides, plataformas digitais de prática e avaliação bimestral externa (Prova Paulista), inspirado em técnicas de instrução direta. A rede municipal adota um currículo organizado em ciclos, orientado por equidade, educação integral e educação inclusiva, com o professor como autor do planejamento e uso de dados de avaliação para recuperação contínua. Conclui-se que os planos de aula e as ferramentas EDUC reproduzem a arquitetura do modelo estadual (aula em etapas cronometradas, tarefa digital, avaliação e dado) e a concepção do modelo municipal (discussão de estratégias, recomposição, inclusão, participação da família e autoria), acrescentando um elemento ausente em ambas as redes: o tratamento operacional do erro como aprendizagem.

Palavras-chave: Currículo Paulista. Currículo da Cidade. Ensino estruturado. Recomposição das aprendizagens. Tecnologias educacionais.

Lista de quadros

  1. Quadro 1 – Comparação entre os modelos das redes estadual e municipal
  2. Quadro 2 – Correspondência entre as etapas do plano de aula e os modelos das redes
  3. Quadro 3 – Ferramentas EDUC e seus equivalentes nas redes paulistas

Lista de siglas

BNCC – Base Nacional Comum Curricular
CMSP – Centro de Mídias da Educação de São Paulo
EMAI – Educação Matemática nos Anos Iniciais
ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
PNLD – Programa Nacional do Livro e do Material Didático
PSA – Prova Saberes e Aprendizagens
PWA – Progressive Web App
Saeb – Sistema de Avaliação da Educação Básica
SARESP – Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo
SEDUC-SP – Secretaria da Educação do Estado de São Paulo
SME-SP – Secretaria Municipal de Educação de São Paulo
TPA – Tecnologias para Aprendizagem

Sumário

  1. 1 Introdução
  2. 1.1 Objetivos
  3. 1.2 Metodologia
  4. 2 O modelo da rede estadual de São Paulo
  5. 2.1 Base curricular
  6. 2.2 Didática: a aula estruturada em slides
  7. 2.3 Plataformas digitais
  8. 2.4 Avaliação
  9. 2.5 Críticas ao modelo
  10. 3 O modelo da rede municipal da capital
  11. 3.1 Concepção curricular
  12. 3.2 Didática e materiais
  13. 3.3 Recomposição e avaliação
  14. 3.4 Tecnologias para Aprendizagem
  15. 4 Análise comparativa entre as redes
  16. 5 Os planos de aula do autor à luz dos dois modelos
  17. 5.1 Estrutura da aula
  18. 5.2 Convergências
  19. 5.3 Singularidades
  20. 6 As ferramentas digitais EDUC à luz dos dois modelos
  21. 7 Conclusão
  22. 7.1 Recomendações
  23. Referências

1 Introdução

As redes públicas de ensino do estado de São Paulo constituem, em número de estudantes, os maiores sistemas educacionais do país. A rede estadual atende cerca de 2,5 milhões de alunos, e a rede municipal da capital organiza o ensino fundamental de uma das maiores cidades da América Latina. Ambas partem da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), mas traduzem esse documento em propostas pedagógicas muito distintas, o que faz delas um par de referências privilegiado para quem projeta aulas e materiais didáticos.

A partir de 2023, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEDUC-SP) passou a fornecer às escolas aulas prontas em formato de slides, acompanhadas de plataformas digitais de prática e de uma avaliação externa bimestral, a Prova Paulista. A medida provocou debate público intenso, envolvendo autores de livros didáticos, pesquisadores, o Ministério Público e a Assembleia Legislativa (ABRALE, 2023; MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2024). A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SME-SP), por sua vez, mantém desde 2017 o Currículo da Cidade, organizado em ciclos de aprendizagem e fundado nos princípios de equidade, educação integral e educação inclusiva (SÃO PAULO, 2022a).

O autor deste estudo atua como professor efetivo do 3º ano do ensino fundamental na rede municipal de Araruama (RJ) e desenvolve, sob a marca EDUC Games, planos de aula e ferramentas digitais próprios: criador de slides interativos, criador de quizzes, plataforma de quizzes competitivos, hubs de aula, diário de aulas para as famílias, software de acompanhamento da recomposição e avaliador automático de planos. A pergunta que orienta o trabalho é: em que medida essa produção se aproxima ou se distancia dos modelos pedagógicos adotados pelo Governo do Estado e pela Prefeitura de São Paulo?

1.1 Objetivos

O objetivo geral é caracterizar os modelos pedagógico, metodológico e didático das redes estadual e municipal de São Paulo e compará-los com os planos de aula e as ferramentas digitais EDUC. São objetivos específicos:

  1. descrever a base curricular, a didática, os materiais, as plataformas e a avaliação da rede estadual;
  2. descrever os mesmos elementos na rede municipal da capital;
  3. comparar sistematicamente os dois modelos;
  4. identificar convergências e singularidades entre esses modelos e a prática docente do autor;
  5. propor recomendações para o aprimoramento dos planos e das ferramentas EDUC.

1.2 Metodologia

Trata-se de pesquisa qualitativa, de natureza documental e bibliográfica. O corpus inclui documentos oficiais das duas secretarias (currículos, instruções normativas, boletins pedagógicos, cadernos de recomposição), pareceres do Conselho Estadual e do Conselho Municipal de Educação, notícias institucionais da Agência SP, um relatório técnico da Associação Brasileira dos Autores de Livros Educativos (ABRALE) e artigos acadêmicos publicados entre 2023 e 2026. A comparação com a prática do autor utiliza como unidade de análise o plano de aula de Matemática das habilidades EF03MA26 e EF03MA27 (gráficos de barras e tabelas de dupla entrada), as diretrizes de planejamento adotadas pelo autor e as especificações funcionais das ferramentas EDUC. As fontes foram consultadas em outubro de 2026.

2 O modelo da rede estadual de São Paulo

A rede estadual adota, desde 2023, um modelo de ensino estruturado e centralizado. O Currículo Paulista é convertido pela própria Secretaria em aulas numeradas, aula a aula, e o resultado é medido a cada bimestre. A lógica declarada pelo governo é a de um ciclo fechado: aula digital comum, material impresso coerente com ela, tarefa de casa eletrônica para acompanhar o estudo fora da escola e avaliação periódica (O POVO, 2023).

2.1 Base curricular

O documento de referência é o Currículo Paulista, homologado em 2019 e alinhado à BNCC, organizado por competências e habilidades. Nos anos iniciais, a rede herda dois programas de longa duração: o Ler e Escrever, voltado à alfabetização e à produção de textos a partir de gêneros reais, com práticas como a leitura em voz alta pelo professor e o ditado ao professor; e o Projeto Educação Matemática nos Anos Iniciais (EMAI), iniciado em 2012 e estruturado em sequências didáticas com expectativas de aprendizagem. Os dois foram revistos para o Currículo Paulista (SÃO PAULO, 2021a; 2021b).

No campo da alfabetização, o Programa Alfabetiza Juntos SP, instituído pelo Decreto Estadual nº 68.335/2024, articula Estado e municípios, com formação continuada estruturada para professores do 1º ao 5º ano em parceria com o SESI-SP (SÃO PAULO, 2025a).

2.2 Didática: a aula estruturada em slides

Cada aula de 45 minutos é disponibilizada como um arquivo de aproximadamente 15 a 20 slides no Centro de Mídias da Educação de São Paulo (CMSP), para projeção na televisão da sala. A estrutura é idêntica em todos os componentes curriculares e compreende quatro momentos: Para começar, uma contextualização breve; Foco no conteúdo, com exposição de conceitos e exemplos; Na prática, atividade guiada; e Aplicando, transferência para outro contexto. Os slides indicam o tempo de cada etapa e trazem a correção das atividades (ABRALE, 2023).

A referência metodológica aparece em boxes que nomeiam técnicas do livro Aula Nota 10, de Doug Lemov, como a técnica em que todos os alunos escrevem antes de responder. Do ponto de vista teórico, trata-se de uma variante de instrução direta ou explícita: modelagem pelo professor, prática guiada, prática independente e verificação frequente da compreensão. Após a controvérsia de 2023 sobre a saída do PNLD, o material digital passou a conviver com as apostilas impressas Currículo em Ação e com os livros do programa federal (METRÓPOLES, 2023).

2.3 Plataformas digitais

A rede disponibiliza cerca de doze plataformas aos estudantes, entre elas Matific (matemática gamificada nos anos iniciais), Khan Academy (ensino médio), Leia SP (acervo digital de leitura), Elefante Letrado (alfabetização), Tarefa SP (listas de exercícios alinhadas ao currículo, com acompanhamento pelo professor), Redação Paulista, Alura e Prepara SP (AGÊNCIA SP, 2026). O uso é induzido por componentes curriculares específicos, como Orientação de Estudos, e por metas de acesso por escola (OUTRAS PALAVRAS, 2025).

2.4 Avaliação

A Prova Paulista é uma avaliação digital aplicada no 1º, 2º e 3º bimestres a estudantes do 4º ano do ensino fundamental à 3ª série do ensino médio, em dois dias: o primeiro com Língua Portuguesa e Ciências Humanas, o segundo com Matemática e Ciências da Natureza. Os itens seguem o padrão do Saeb. Embora apresentada como diagnóstica, as escolas podem usar até 30% do resultado na nota bimestral de cada componente (ABC DO ABC, 2025a; 2025b). Desde 2024 há itens com mais de uma alternativa correta, e o 5º ano responde a 30 questões por dia (ABC DO ABC, 2024). A Prova Paulista substituiu em 2023 a Avaliação da Aprendizagem em Processo (AAP), aplicada desde 2011, e convive com o SARESP anual (SCIELO PREPRINTS, 2025).

2.5 Críticas ao modelo

O relatório da ABRALE (2023), elaborado sobre as aulas do 2º bimestre do 6º ano, aponta padronização excessiva, tempos rígidos que inviabilizam atividades práticas, predomínio da exposição, correções entregues prontas, textos criados artificialmente em Língua Portuguesa, erros conceituais em Matemática e Geografia, ausência de referência explícita às habilidades da BNCC e falta de orientação para a inclusão de estudantes da educação especial. Pesquisa publicada na Educação em Revista conclui que a Prova Paulista, embora definida como diagnóstica, tem funcionado como instrumento de controle, ranqueamento e estreitamento curricular (EDUCAÇÃO EM REVISTA, 2025). O Ministério Público instaurou inquérito civil sobre a substituição do planejamento docente por plataformas (MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2024), e a Assembleia Legislativa requereu informações sobre erros em questões e falhas técnicas do aplicativo na aplicação da prova (SÃO PAULO, 2025b).

3 O modelo da rede municipal da capital

A Prefeitura de São Paulo segue um modelo menos prescritivo e mais formativo. O Currículo da Cidade define princípios, objetivos de aprendizagem e saberes transversais; a Secretaria oferece cadernos, sequências e dados de avaliação, mas o professor permanece como autor do planejamento.

3.1 Concepção curricular

O Currículo da Cidade, publicado em 2017, apoia-se em três conceitos orientadores: equidade, educação integral e educação inclusiva (SÃO PAULO, 2022a). Sua Matriz de Saberes reúne aprendizagens que atravessam todos os componentes, como pensamento científico e crítico, resolução de problemas, comunicação, autonomia, abertura à diversidade, responsabilidade, participação, empatia e colaboração. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 foram incorporados como temas inspiradores (SÃO PAULO, 2017a).

O ensino fundamental organiza-se, desde o programa Mais Educação São Paulo (2013), em três ciclos de três anos: Alfabetização (1º ao 3º ano), Interdisciplinar (4º ao 6º) e Autoral (7º ao 9º) (SÃO PAULO, 2016). O 3º ano, série em que o autor leciona, encerra o ciclo de alfabetização. O currículo encontra-se em processo de atualização desde o fim de 2025 (SÃO PAULO, 2026b).

3.2 Didática e materiais

Em Língua Portuguesa, o trabalho é organizado por práticas de linguagem com gêneros que circulam socialmente e progressão por ciclo, detalhado nas Orientações Didáticas do Currículo da Cidade (SÃO PAULO, 2018). A abordagem predominante é construtivista e sociointeracionista: problematização, levantamento de hipóteses, socialização das estratégias e sistematização coletiva, com o professor como mediador. Os materiais centrais são os Cadernos da Cidade – Saberes e Aprendizagens, em versões para aluno e professor do 1º ao 9º ano, as Trilhas de Aprendizagens e as sequências de atividades da plataforma Currículo Digital (SÃO PAULO, 2021c; PREFEITURA DE SÃO PAULO, 2023).

3.3 Recomposição e avaliação

A rede distingue recuperação contínua, realizada no cotidiano da aula, e recuperação paralela, em contraturno. Para apoiá-las, a Secretaria publica cadernos por ano e componente que associam cada habilidade fragilizada a atividades dos materiais da rede (SÃO PAULO, 2024). Em 2025, o calendário incluiu uma Semana de Recomposição das Aprendizagens e foi lançada a coleção Recompor para Avançar (SÃO PAULO, 2025c; 2025d).

A avaliação combina a Prova São Paulo, anual, e a Prova Saberes e Aprendizagens (PSA), bimestral. Os resultados alimentam o Boletim Pedagógico Bimestral, que identifica as habilidades em que os estudantes da rede apresentaram menor desempenho e propõe uma rotina de atividades para retomá-las, sob o princípio da acessibilidade curricular (SÃO PAULO, 2026a). A avaliação, aqui, é declaradamente instrumento de replanejamento.

3.4 Tecnologias para Aprendizagem

A rede municipal possui um componente curricular próprio, Tecnologias para Aprendizagem (TPA), com eixos de letramento digital, programação e tecnologias de informação (SÃO PAULO, 2017b). As aulas ocorrem nos Laboratórios de Educação Digital de todas as escolas de ensino fundamental, conduzidas por Professores Orientadores de Educação Digital. A proposta descende do Projeto Gênese, que levou a linguagem Logo às escolas municipais na gestão de Paulo Freire, e enfatiza protagonismo, autoria, inventividade e colaboração: o estudante produz com tecnologia, e não apenas a consome (SÃO PAULO, 2024b; UFSCAR, 2023).

4 Análise comparativa entre as redes

As duas redes partem da mesma BNCC, mas divergem no grau de prescrição. A rede estadual entrega a aula pronta e mede o resultado a cada bimestre; a rede municipal entrega princípios, cadernos e dados e devolve o planejamento ao professor. O Quadro 1 sintetiza as diferenças.

Quadro 1 – Comparação entre os modelos das redes estadual e municipal
DimensãoRede estadual (SEDUC-SP)Rede municipal (SME-SP)
Documento-baseCurrículo Paulista (2019)Currículo da Cidade (2017, em atualização)
Matriz pedagógicaInstrução direta; ensino estruturado (técnicas de Lemov)Construtivismo e sociointeracionismo; educação integral
Organização do tempoBimestre; aula de 45 min com etapas cronometradasCiclos de três anos; o 3º ano encerra a alfabetização
Formato da aulaPara começar → Foco no conteúdo → Na prática → AplicandoProblematização → hipóteses → socialização → sistematização
MaterialSlides do CMSP, Currículo em Ação e PNLDCadernos da Cidade, Trilhas de Aprendizagens, Currículo Digital
Papel do professorExecutor de roteiro comumAutor do planejamento e mediador
AvaliaçãoProva Paulista bimestral digital e SARESP; até 30% da notaProva São Paulo anual e PSA bimestral; Boletim Pedagógico
RecomposiçãoAulas de nivelamento e retomada; plataformas de reforçoRecuperação contínua e paralela; Recompor para Avançar
TecnologiaUso de plataformas (Matific, Tarefa SP, Leia SP, Khan, Alura)Componente TPA: letramento digital e programação, com autoria
InclusãoPouca orientação no material digitalEducação inclusiva como princípio; acessibilidade curricular
Principal críticaPadronização, controle e treino para testeImplementação desigual entre escolas
Fonte: elaborado pelo autor com base em ABRALE (2023), Agência SP (2026), São Paulo (2017a; 2022a; 2026a).

Em síntese, o modelo estadual privilegia a fidelidade de implementação e a comparabilidade dos resultados, ao custo da autonomia docente e da diversidade de estratégias. O modelo municipal privilegia a adequação ao contexto e a formação integral, ao custo de maior dependência da qualidade da formação e da coordenação pedagógica de cada unidade.

5 Os planos de aula do autor à luz dos dois modelos

Os planos de aula do autor combinam a forma do modelo estadual, com aula cronometrada, objetivo único e verificação ao final, com a didática do modelo municipal, marcada pela discussão de estratégias, pela recomposição contínua, pela inclusão e pela participação da família. Situam-se, portanto, entre os dois modelos, mais próximos da concepção municipal.

5.1 Estrutura da aula

O plano de Matemática das habilidades EF03MA26 e EF03MA27 segue o modelo de planos alinhados à BNCC difundido pelo convênio entre o Ministério da Educação e a Nova Escola, composto por aquecimento, atividade, discussão das soluções, encerramento e Raio X (UDESC, 2023). O Quadro 2 mostra como cada etapa dialoga com as duas redes.

Quadro 2 – Correspondência entre as etapas do plano de aula e os modelos das redes
Etapa do plano (tempo)Rede estadualRede municipalPonto em comum
Retomada (10 min): hipóteses e gráfico coletivoPara começarProblematização e conhecimentos préviosAtivação do que o aluno já sabe
Atividade (15 min): construir gráfico a partir de dadosFoco no conteúdo e Na práticaSituação-problema em gruposPrática com material concreto (tampinhas coloridas)
Discussão de soluções (10 min)Sem etapa equivalenteSocialização e comparação de estratégiasElemento mais próximo do modelo municipal
Encerramento (5 min)AplicandoSistematização coletivaFormalização do conceito
Raio X (8 min): atividade diagnóstica individualVerificação frequente; Prova Paulista em pequena escalaAvaliação para replanejarEvidência de aprendizagem ao final da aula
Fonte: elaborado pelo autor.

5.2 Convergências

5.3 Singularidades

Dois elementos distinguem a prática do autor de ambas as redes. O primeiro é o tratamento do erro como aprendizagem, na perspectiva de Luckesi: a resposta correta não é revelada e as dicas são progressivas. O slide estadual traz a correção pronta; a rede municipal valoriza o erro, mas não dispõe de um protocolo tão operacional. O segundo é a observância de normas sobre tempo de tela e pausas (Lei nº 15.100/2025, recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria e regra 20-20-20), ausentes do desenho de aula das duas redes, embora o modelo estadual projete slides durante toda a aula.

6 As ferramentas digitais EDUC à luz dos dois modelos

O conjunto de ferramentas EDUC reproduz, na escala de um professor, praticamente todas as peças do ciclo estadual (aula em slides, tarefa digital, avaliação e dado), mas com a concepção de autoria e inclusão do modelo municipal. Cada ferramenta tem um equivalente direto em uma das redes, como mostra o Quadro 3.

Quadro 3 – Ferramentas EDUC e seus equivalentes nas redes paulistas
Ferramenta EDUCRede estadualRede municipalDiferencial EDUC
EDUC Aula Viva – slides gerados a partir de texto, com 16 tipos (9 interativos)Material digital em slides do CMSPSequências no Currículo DigitalSlides interativos (quiz, ordenar, completar, enquete) feitos pelo próprio professor; exportação em HTML único e offline
Hubs de aula com QR code por recursoCMSP como repositório da aulaPlataforma Currículo DigitalAcesso de alunos e famílias sem login; aviso de pausa aos 20 minutos
EDUC Studio e Folha A4 – autoria de quizzes com figuras e prova impressaTarefa SP; itens da Prova PaulistaItens da PSAItens e figuras criados pelo professor; versão impressa com cartão-resposta para os pais
QuizArena e Quiz Aventura – prática com regra de erro de LuckesiMatific e Khan AcademyUso ativo de tecnologia (TPA)Dica, reenfileiramento e não revelação da resposta; modo competitivo por equipes
EDUC Diário de Aulas – publicação das aulas às famílias por PINDiário de Classe digital da SEDSistema de Gestão Pedagógica (SGP)Feed semanal para a família, com os links da aula
EDUC Recomposição – acompanhamento por habilidadePainéis de resultado da Prova PaulistaBoletim Pedagógico Bimestral; SERApConstruído a partir da turma real, e não do agregado da rede
EDUC Parecer – avaliação automática de planosPadronização central do roteiroAcompanhamento da coordenaçãoAutomatiza critérios de qualidade sem retirar a autoria
EDUC Código, Laboratório do Robô, Cidade dos AlgoritmosAlura (ensino médio)TPA: programação nos Laboratórios de Educação DigitalPensamento computacional desde o 3º ano, com a BNCC Computação (EF15CO)
Fonte: elaborado pelo autor.

A arquitetura das ferramentas aproxima-se do modelo estadual: slides prontos, quiz, prova digital e painel de dados formam o mesmo fluxo que a SEDUC-SP montou com o CMSP, o Tarefa SP e a Prova Paulista. A concepção aproxima-se do modelo municipal: o professor é autor de todo o material, há espaço para o erro, para a inclusão (VLibras e plano adaptado) e para a produção pelo aluno por meio da programação, como no componente TPA. Por fim, a opção técnica por aplicações web progressivas de arquivo único e funcionamento offline responde a um problema comum às duas redes, a conectividade, evidenciado pelas falhas do aplicativo relatadas na aplicação da Prova Paulista (SÃO PAULO, 2025b).

7 Conclusão

O estudo permitiu caracterizar dois modelos pedagógicos distintos dentro de um mesmo estado. A rede estadual de São Paulo adota um ensino estruturado e centralizado, sustentado por aulas prontas em slides, plataformas digitais de prática e uma avaliação externa bimestral, com forte ênfase na fidelidade de implementação e na comparabilidade de resultados. A rede municipal da capital adota um currículo organizado em ciclos, fundado em equidade, educação integral e educação inclusiva, em que o professor é o autor do planejamento e a avaliação serve para orientar a recuperação contínua.

Respondendo à pergunta de pesquisa, constatou-se que os planos de aula e as ferramentas digitais EDUC ocupam uma posição intermediária e coerente entre esses modelos. Da rede estadual, herdam a arquitetura: aula em etapas cronometradas, objetivo único, verificação ao final e um ciclo digital de aula, prática, avaliação e dado. Da rede municipal, herdam a concepção: discussão de estratégias, recomposição contínua, inclusão com fundamentação legal, participação das famílias e autoria docente e discente. A esses elementos somam-se duas contribuições próprias: o protocolo operacional do erro como aprendizagem e o cuidado com o tempo de tela.

Como limitações, o estudo baseou-se em análise documental, sem observação de aulas nas redes paulistas, e utilizou um único plano de aula como unidade de análise detalhada. Estudos futuros podem comparar o desempenho de turmas que utilizam as ferramentas EDUC com indicadores das avaliações externas.

7.1 Recomendações

  1. Registrar por escrito a matriz pedagógica EDUC, definida como aula estruturada com mediação construtivista e erro como aprendizagem, para apresentá-la a secretarias de educação.
  2. Calibrar o Raio X e os quizzes pelo padrão Saeb (descritor, texto-base e quatro alternativas com distratores justificados), formato comum à Prova Paulista, à Prova São Paulo e ao Saeb do 5º ano.
  3. Produzir, a cada trimestre, um boletim pedagógico da turma nos moldes do da SME, com três a cinco habilidades fragilizadas e as atividades EDUC que as retomam, aproveitando os dados do EDUC Recomposição.
  4. Incluir no EDUC Aula Viva um tipo de slide dedicado à discussão das soluções, que compare estratégias de diferentes alunos.
  5. Medir o efeito das ferramentas comparando os acertos no Raio X antes e depois do uso dos quizzes, por habilidade.
  6. Incorporar ao EDUC Parecer critérios derivados das críticas ao modelo estadual: textos artificiais, correções prontas, tempos inexequíveis e falta de revisão conceitual.

Referências

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ABC DO ABC. Prova Paulista do 2º bimestre une orientação de estudos e seletiva para olimpíada de língua portuguesa. 6 jun. 2025a. Disponível em: https://abcdoabc.com.br/prova-paulista/. Acesso em: 11 out. 2026.

ABC DO ABC. 2,6 milhões de estudantes da rede estadual fazem a Prova Paulista. 16 set. 2025b. Disponível em: https://abcdoabc.com.br/estudantes-fazem-a-prova-paulista. Acesso em: 11 out. 2026.

AGÊNCIA SP. Rede estadual de SP oferece 12 plataformas digitais para estudantes. Reproduzido por ABC do ABC, 2026. Disponível em: https://abcdoabc.com.br/rede-estadual-12-plataformas-estudantes/. Acesso em: 11 out. 2026.

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EDUCAÇÃO EM REVISTA. Compreensões e usos da Prova Paulista por docentes e gestores. Belo Horizonte: UFMG, 2025. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/edrevista/article/view/61240/52861. Acesso em: 11 out. 2026.

LEMOV, D. Aula nota 10: 49 técnicas para ser um professor campeão de audiência. São Paulo: Da Boa Prosa; Fundação Lemann, 2011.

METRÓPOLES. Entenda como ficam as aulas em SP após vaivém do material didático. 2023. Disponível em: https://www.metropoles.com/sao-paulo/entenda-como-ficam-as-aulas-em-sp-apos-vaivem-do-material-didatico. Acesso em: 11 out. 2026.

MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Grupo de Atuação Especial de Educação (GEDUC). Inquérito Civil nº 0738.0000455/2024: material didático. São Paulo, 2024. Disponível em: https://adusp.org.br/wp-content/uploads/2025/10/platgeduc.pdf. Acesso em: 11 out. 2026.

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